Com todo o respeito, Leonardo DiCaprio faz tanto filme de época que eu tenho impressão que ele já faleceu. E foram tantas parcerias com Scorcese que dá pra imaginar que vem mais uma trama cheia de densidade por aí, no estilo que só o baixinho consegue fazer. Porém, estamos falando de um filme de Clint Eastwood, o diretor que consegue ir da violência – Gran Torino – ao romance – As Pontes de Madison – entregando sempre grandes obras, ao lado de Leonardo Di Caprio, um dos melhores atores da atualidade.

De cara, J.Edgar é um filme que provavelmente não levará multidões ao cinema. Além de não ter sido indicado a nenhum Oscar – o que lhe garantiria algum apelo – , o filme fala de um assunto mais “americano” e delicado e tem uma narrativa pouco fácil de ser digerida para aqueles que procuram uma biografia redonda e direta. O que é uma pena, pois tanto Di Caprio como seus colegas de cena dão um baita show de interpretação – mesmo por trás de uma maquiagem bem fake e da fotografia escura que chega a incomodar algumas vezes.

Desconhecido do grande público, John Hoover é “O” nome por trás da construção do que conhecemos hoje como FBI. O filme mostra um Hoover já velho contando sua história para alguns biógrafos, ao mesmo tempo que cenas do passado vão se mesclando a essa realidade. O filme mostra a eterna dicotomia – ui – que foi a vida pessoal e profissional de J.Edgar: ao mesmo tempo que se mostrou um chantagista de primeira para se manter no mesmo cargo por 48 anos, também foi o responsável por organizar as provas, as evidências e a estruturar todo o esquema de investigação criminal que a gente assiste em CSI – só que muito mais sofisticado. Além disso, sua preocupação com a imagem do Bureau – numa época onde os gangsters eram venerados no cinema, inspirou os modernos e destemidos policiais honestos e agentes secretos do cinema.

Outro conflito era o seu relacionamento com colega de trabalho e companheiro de quase toda a vida, Clyde Tolson – papel de Armie Hammer, o intérprete dos gêmeos de A Rede Social. Hammer, por sinal, rouba muitas vezes a cena, principalmente na fase mais velha do personagem – mesmo carregando uma das piores maquiagem do filme – colocando-o como mais merecedor de uma possivel indicação ao Oscar do que Di Caprio. O romance dos dois é comedido até dizer chega, muito pela devoção de Edgar à mãe, uma Judi Dench perfeita como sempre, num papel pequeno mais carregado de temor e admirição do filho, a quem preferia ter morto do que homossexual.

Numa das melhores cenas do filme, Tolson sugere que Hoover se aposente, mas com o medo que sempre o perseguiu de parecer fraco o faz recusar. É quando Tolson revela como o próprio companheiro se deixou enganar e enganou os outros – e o próprio público – desde o momento que narrou sua biografia. E no fim é isso, um filme que discute até onde saber dos detalhes pessoais de um grande ídolo pode influenciar na imagem que temos dele. Bora assistir?








